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As hortênsias me procuram, mas sou eu quem busca a imagem e o sentido delas, multifacetadas, ângulos de fato ou de pura fantasia. Onde as hortênsias tão lindas, arrastando cachos de flores pelo chão, em torno do pátio do algibe da casa de minha avó? Tanto tempo, hoje desapego, o oposto da prepotência. Onde, tão rente ao chão, me jogando tão alto e longe, ao mesmo tempo perto, tão dentro?
O boné verde e o lenço azul torcido representam meu chakra cardíaco, que vi com a ajuda de Toni, em Campinas, 1995. Foi para aprender a não ser dividida, como a Bélgica, meu destino na época, rumo a Paris - pesquisa do doutorado em literatura. Ainda não sou uno, mas me ampliei bastante. As duas folhas verdes são brotos dentro da mata preservada, pra lembrar que ainda tenho um chakra básico que me enraíza. Namastê, amigos da Flor e Ser.
Passaram-se muitos dias, meses até, depois da última postagem-desabafo-memórias-tormentos. Agora é presente, e as perspectivas da vida no outro lado. Tanto aquele que ainda virá quanto as possibilidades do aqui e agora. A beleza do lugar me fascina e espero o que há para viver por aqui, mesmo que seja apenas preparação para reconhecer o invisível para os olhos, vislumbrado pela alma. Na praça vazia do humano carnal, a neblina revela presenças. Estou atenta.
Na seqüência de fotos na página deste site e nos próximos textos deste blog, recolho lembranças e fatos vividos, para pensar enquanto escrevo, reler muitas vezes, tomar decisões que resolvam dúvidas. Na primeira foto o alto portão de pedra e zinco era a entrada lateral da casa da estância onde vivi parte de minha infância.
Era o ano de 1985. Passeava com minhas filhas, Juliana e Fabiana, então com 8 e 7 anos de idade, na mesma fazenda (no rs é mais usado o termo estância) onde passei minha infância. Entre Dom Pedrito e Torquato Severo (ou São Sebastião), próximo ao local chamado Wautier, a antiga Estância São Pedro pertencia então a um dos meus tios, por herança deixada por meus avós.
De dentro da mangueira/curral de pedra se via, em linha reta, o galpão também feito de pedras empilhadas e ajustadas no tempo dos escravos, o couro de carneiro ou ovelha, cuja carne seria servida à mesa naquele dia, era estendido para secar. Se tivesse lã serviria de pelego, parte dos aviamentos de montaria. No último plano da foto está a casa da família.
Minha geração, dos anos de 1950, e a de minhas filhas, da década de setenta, na classe média a que pertencemos, fomos privilegiadas quanto à violência física e moral, em termos. Aprendemos a escolher, a nos defender e a buscar modos de viver que nos facilitaram estar a salvo, em termos, pelo menos das formas mais explícitas.